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Mãos | Justiça, Luto e Resistência

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“Mãos” não é um samba confortável. É uma denúncia construída por meio de uma palavra simples, mas carregada de significados. Existem as mãos honestas que trabalham, acolhem, criam e batem as cordas de um instrumento. Mas também existem as mãos que roubam, absolvem culpados, recebem dinheiro, puxam gatilhos e escolhem quem merece viver. Inspirado na força da composição de Almir Guineto, Carlos Senna e Simões PQD, este quadro transforma a música em uma história visual sombria. Um pai presencia a morte do filho, vê o assassino ser libertado por um juiz corrupto e perde a fé na justiça. Consumido pelo luto, ele adquire poderes e passa a executar com as próprias mãos a justiça que o Estado lhe negou. Entretanto, a obra não transforma a vingança em vitória. Ao final, o homem volta a ser apenas um pai negro carregando seu violão. Abordado pela polícia, levanta a capa do instrumento acima da cabeça na tentativa de mostrar que está desarmado. O gesto é interpretado como ameaça e ele é morto. O violão aberto ao lado do corpo revela o engano quando já é tarde demais. A narrativa utiliza a linguagem dos quadrinhos clássicos, nos quais personagens extraordinários frequentemente servem para discutir problemas profundamente reais. Aqui, o superpoder não salva o protagonista. A armadura protege seu corpo dos criminosos, mas não o protege do medo, do preconceito e da violência institucional. Segundo os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pessoas negras representam 79,7% das vítimas de intervenções policiais no Brasil. Por isso, a última cena não funciona apenas como encerramento da história. Ela transforma fantasia em realidade social. A grande poça de sangue diante do personagem não está presente somente pelo impacto visual. Ela simboliza todas as palavras que não foram ouvidas, todas as histórias interrompidas e todas as vidas reduzidas a números. No centro de tudo permanecem as mãos. As mãos do criminoso. As mãos do juiz. As mãos do pai. As mãos do herói. As mãos dos policiais. E, finalmente, as mãos do homem morto, estendidas em direção a quem observa o quadro. Uma obra sobre justiça, poder e responsabilidade. Um lembrete de que a mesma sociedade que exige que um homem levante as mãos também pode decidir atirar antes de enxergar o que ele realmente carrega.

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